Fala Roça
Amplificando as vozes da favela
Em um país onde as favelas ainda são frequentemente retratadas pela lente da violência, um grupo de jovens da Rocinha decidiu construir uma narrativa diferente. Assim nasceu, em 2013, o Fala Roça — jornal comunitário idealizado pelos irmãos Michel e Michele Silva. O incômodo com os estereótipos motivou o projeto: “a gente não dá voz a ninguém, mas amplifica as vozes que sempre estiveram ali”, explica Tatiana Lima, jornalista e coordenadora de jornalismo do veículo.
Localizada na Zona Sul do Rio de Janeiro, entre os bairros da Gávea, São Conrado e Vidigal, a Rocinha é a favela mais populosa do país, com cerca de 72 mil habitantes segundo o censo de 2022. Apesar de ser um dos territórios mais conhecidos do Brasil, é frequentemente retratado pela mídia tradicional a partir da violência urbana, ignorando a diversidade cultural e social que compõem o cotidiano da comunidade. Foi diante desse cenário que o Fala Roça surgiu, como forma de disputar a narrativa e valorizar a produção de conteúdo feita pelos próprios moradores.
“O que falta não é voz. O que falta é escuta. O Fala Roça nasceu pra isso: pra criar uma escuta real do que é dito na favela”, reforça Tatiana.
O projeto começou como jornal impresso dentro da Agência de Redes para Juventude, uma iniciativa de incentivo a ideias de jovens das periferias. Em pouco tempo, virou um blog, ganhou redes sociais e hoje funciona como uma associação com quatro eixos de atuação: comunicação, formação, memória e pesquisa.
Foto: Reprodução / Instagram @jornalfalaroca
A equipe atual é formada por jovens moradores da Rocinha, que atuam de forma colaborativa na produção de reportagens, nas redes sociais, em eventos comunitários e nas formações mensais. Muitos conciliam o trabalho no jornal com outros empregos, estudos e atividades autônomas, o que torna a produção um desafio constante. Ainda assim, o comprometimento com a comunidade mantém o projeto vivo.
“Já passamos por momentos em que ninguém recebia nada. Era 100% voluntário, na raça. Mas a gente acreditava muito no que estava construindo, então seguimos”, relembra Tatiana.
Foto: Acervo @jornalfalaroca (Instagram)
O jornal já recebeu apoio de editais como o ISS (via MetrôRio), o programa Ações Locais e da própria Agência de Redes para Juventude. Mas, como a coordenadora explica, a sustentabilidade continua sendo o maior desafio: “É muito difícil manter uma equipe paga de forma justa quando você está fora do radar do mercado tradicional. A gente enfrenta preconceito por ser da favela, por fazer jornalismo comunitário.”
Apesar disso, o Fala Roça acumula conquistas importantes ao longo de mais de dez anos de existência. Uma das matérias de maior repercussão denunciou que um tomógrafo, comprado com dinheiro público durante a gestão do então prefeito Marcelo Crivella, foi instalado dentro de um templo da Igreja Universal, em São Conrado. A denúncia partiu da equipe do jornal e repercutiu em veículos nacionais. Outro exemplo foi a matéria sobre um padeiro da Rocinha que, durante a pandemia, distribuiu pães para vizinhos que estavam sem renda. O conteúdo viralizou e gerou uma campanha de doações que ajudou a manter a ação do morador.
Além disso, o jornal teve papel fundamental durante a campanha de vacinação contra a Covid-19 na Rocinha. Ao perceber que a segunda dose não havia chegado para parte da população, a equipe mobilizou os moradores, fez pressão nas redes sociais e cobrou explicações da Secretaria Municipal de Saúde. O resultado foi a retomada da vacinação no local.
O impacto do Fala Roça não se limita à informação. Ele também atua como instrumento de construção de memória e identidade local. Com oficinas mensais sobre a história da Rocinha, o projeto busca resgatar narrativas apagadas pela historiografia oficial, como a origem do nome da favela e os processos de ocupação do território.
Essas formações, abertas ao público, atraem principalmente jovens, estudantes e moradores curiosos sobre a história do lugar onde vivem. “As pessoas precisam saber de onde vieram. Isso também é jornalismo. É contar a história que não foi contada nos livros”, explica Tatiana.
Além das oficinas, o Fala Roça já promoveu eventos como o Viradão Cultural da Rocinha, mapeamentos culturais e cursos de introdução ao jornalismo comunitário. O jornal também inspira jovens de outras favelas a criarem seus próprios projetos de comunicação. Muitos entram em contato para trocar experiências e até pedir orientação. “É bonito ver que a gente virou referência pra outros territórios. Mas sempre falo: comunicação de favela é muito mais do que querer ser jornalista. É saber por que e pra quem você quer falar”, afirma Tatiana.
Michel Silva, um dos fundadores do jornal, segue atuando ativamente no projeto e também participa de debates sobre comunicação, periferia e direitos humanos em universidades, festivais e encontros pelo país. Sua trajetória já foi reconhecida por premiações e convites internacionais, mas ele continua morando na Rocinha e trabalhando no território.
Atualmente, o Fala Roça é publicado em formato digital e pode ser acessado no site www.falaroca.com.br. O jornal também está presente no Instagram, Facebook e Twitter, com o nome de usuário @jornalfalaroca. Nessas plataformas, são divulgadas reportagens, coberturas comunitárias e bastidores da produção jornalística. Com alcance que ultrapassa os limites da Rocinha, o projeto se consolidou como uma das principais referências de jornalismo comunitário no Brasil.
Foto: Acervo Fala Roça / Reprodução